Espírita, qual a sua lenta?

Atualizado: Mai 20

Elton Rodrigues




Transitamos por um período intrincado, onde o óbvio tem necessidade de ser defendido. Movimentos como os terraplanistas, anti-vacinas e aqueles que almejam reescrever a história ganham força em todo o mundo. Não é de se espantar que, paralelamente, a desconfiança nos resultados acadêmicos esteja presente em grande parte da população. Ora, se os dados científicos acerca do formato da Terra não são claros para mim, eu desconfio dessas informações e estou apto a receber novas explicações que estejam de acordo com a forma que enxergo o mundo. Se um número significativo de grupos, aparentemente sem relação, propaga informações negativas contra as vacinas e se, também, não tenho conhecimento sobre as especificidades envolvidas nesse caso, acabo por duvidar do valor benéfico das campanhas de vacinação. Observe que essa estratégia, talhando a verdade a partir de como entendo o mundo, conscientemente ou não, é o caminho oposto proposto pela ciência.


Há pouco, o ministro da cidadania, Osmar Terra, engavetou um estudo da FIOCRUZ sobre drogas, realizado por 500 pesquisadores e com 16 mil entrevistas, por não concordar com o resultado. Sua explicação: “Eu não confio nas pesquisas da FIOCRUZ. Temos que nos basear em evidências.” [1] O ministro acredita que a sua experiência individual tem mais peso do que um trabalho realizado por pesquisadores sérios, com método científico, a partir de uma instituição com o prestígio da FIOCRUZ. Também encontramos Bolsonaro cometendo os mesmos deslizes. Em abril, reforçando a ignorância do chanceler Ernesto Araújo, afirma que não tem dúvida que nazismo era de esquerda [2], contrariando a visão dos historiadores alemães e do próprio Centro Mundial de Memória do Holocausto, em Jerusalém.


Nos dois exemplos observamos pessoas cristalizadas em suas verdades, bloqueadas e resistentes contra qualquer informação externa que vá de encontro com suas formas estagnadas – e obsoletas – de interpretação de mundo. São casos típicos da política da pós-verdade, onde a intenção é modelar a opinião pública a partir de emoções e às crenças particulares, ignorando, ou enfraquecendo, os fatos objetivos.

Não menos insólito do que os exemplos supracitados, é o fato de existir espíritas defendendo porte de arma para a população, pena de morte, ataques à educação e discriminações variadas.


Há espíritas declarados que ignoram as bases filosóficas que sustentam o espiritismo. Há, também, espíritas declarados que utilizam da estratégia “recorte de um texto” para que suas teses, mesmo que conflitantes com aspectos doutrinários mais gerais, apresentem sustentação teórica. Comparando as problemáticas dos dois casos, entendemos que o primeiro é o mais simples de ser resolvido. Aqueles que ignoram podem aprender e, quase sempre, estão aptos para absorverem novas possibilidades interpretativas. Dessa forma, o trabalho de base é primordial, pois apresentando uma educação emancipadora, onde o ser passa a raciocinar e atuar na interface teoria-prática, aquele que ignorava se torna foco de transformação social. No entanto, os espíritas que se encontram no segundo grupo compartilham dos mesmos imbróglios constatados nas falas de Bolsonaro, Araújo e Terra. Como já foi dito, estão fechados hermeticamente a qualquer exegese conflitante com suas ideias. E o que fazer, nesse caso?


Da mesma forma que parte da população continuará apoiando o governo federal mesmo com todos os absurdos que já ocorreram – e os que ainda ocorrerão – os espíritas cristalizados, apresentando suas interpretações absurdas, continuarão tendo voz dentro do movimento espírita. Dessa forma, o embate, mesmo sendo necessário, não apresentará mudanças significativas no que tange o indivíduo. Em contrapartida, esclarecer, debater, ouvir e trabalhar juntos com os “espíritas não cristalizados” só enriquecerá e fortalecerá a tarefa de renovação dos ideais do nosso movimento espírita e do nosso país. Por fim, criemos coletivos espíritas; façamos grupos de leitura; de trabalho com minorias; com pessoas que se encontram encarceradas. Só assim, com estudo, reflexão e atuação direta na população esquecida, subalterna e sofrida é que iremos modificar o alto grau de absurdos que ocorrem atualmente, em nosso país.


O espírita deve pensar e atuar, como espírita, no mundo. Essa deveria ser a forma de enxergarmos a vida; deveria ser a nossa lente pela qual lutamos, visando trilhar os passos do Mestre de Nazaré.

É um equívoco imaginar que o espiritismo se resume ao individual, sem pensar no coletivo. A lei é de sociedade e de amor. Como ser espírita sem respeitar e trabalhar em prol da coletividade? Como ser espírita ignorando os avanços das ciências modernas (ciências exatas e sociais!)?


Meus irmãos, minhas irmãs, qual a sua régua para medir o mundo? Qual a sua lente, a partir da qual enxerga as problemáticas da vida, da sociedade e tenta, de alguma forma melhorar a situação geral?

Referências

[1] https://oglobo.globo.com/sociedade/ministro-ataca-fiocruz-diz-que-nao-confia-em-estudo-sobre-drogas-engavetado-pelo-governo-23696922 (acessado em 29.05.19)

[2] https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/04/02/bolsonaro-diz-nao-haver-duvida-de-que-nazismo-era-de-esquerda.ghtml (acessado em 29.05.19)


Texto publicado em 5 de maio de 2019, na página Espíritas à Esquerda

0 visualização

© 2020 por Puebla