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Sobre independência, nacionalismo, comunismo e espiritismo

por Raphael Faé



Projeto gráfico de uma bandeira socialista do Brasil.

Artista: Fernando Dias, 2020.


"De duas nações que tenham chegado ao ápice da escala social, somente pode considerar-se a mais civilizada, na legítima acepção do termo, aquela onde exista menos egoísmo, menos cobiça e menos orgulho; onde os hábitos sejam mais intelectuais e morais do que materiais; onde a inteligência se puder desenvolver com maior liberdade; onde haja mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas; onde menos enraizados se mostrem os preconceitos de casta e de nascimento, por isso que tais preconceitos são incompatíveis com o verdadeiro amor do próximo; onde as leis nenhum privilégio consagrem e sejam as mesmas, assim para o último, como para o primeiro; onde com menos parcialidade se exerça a justiça; onde o fraco encontre sempre amparo contra o forte; onde a vida do homem, suas crenças e opiniões sejam melhormente respeitadas; onde exista menor número de desgraçados; enfim, onde todo homem de boa vontade esteja certo de lhe não faltar o necessário."

Comentário de Kardec à pergunta nº 793, de O Livro dos Espíritos.


O nacionalismo é um tema muito importante para a esquerda.

Mas não do mesmo modo que o é para a direita e a extrema-direita. Para estas, o nacionalismo e o patriotismo são evocados para proteger os interesses das classes dominantes, são exaltados em prol de projetos que, na verdade, são contrários aos interesses das classes populares e trabalhadoras.

Para a esquerda, o nacionalismo burguês é um câncer a ser extirpado da consciência das classes oprimidas. Os comunistas, desde a Segunda Internacional Comunista, com destaque à figura de Lênin, buscavam alertar os trabalhadores para não caírem no canto da sereia do nacionalismo burguês, no sentimentalismo nacional, pois o que estava em jogo era o uso dos trabalhadores como bucha de canhão nas disputas dos países imperialistas por mercados e matérias-primas, colocando trabalhador contra trabalhador, irmão contra irmão, para se matarem a favor das respectivas burguesias imperialistas. Abafados sob a postura traiçoeira de partidos sociais-democratas, que estão sempre com os dois pés no liberalismo e no capitalismo, e da hegemonia do Partido Social Democrata alemão, o mais proeminente de então, deu no que deu: eclodiu a Primeira Guerra Mundial, enquanto conflito que levava ao continente europeu, à centralidade do capitalismo, as misérias causadas pelo próprio capitalismo, e das quais o chamado “Terceiro Mundo” já conhecia muito bem.

Desse modo, o nacionalismo que precisamos está engajado numa proposta de emancipação humana e social. Sejam Marx e Engels, seja Lenin, seja Mao, seja Fidel, e mais uma série de irmãos que exerceram uma notável influência na emancipação sociopolítica de seus respetivos povos, o nacionalismo não foi evocado para esmagar o próprio povo para beneficiar uma pequena classe dominante autoritária e genocida. Ao contrário, o nacionalismo foi evocado para libertar a imensa maioria do povo do jugo da servidão e da opressão, do colonialismo e da dependência à qual eram submetidos por meio da espoliação e da violência mais cínica e cruel. O patriotismo era uma forma de fazer o povo encontrar força e coragem para se levantar contra a dominação e construir um projeto de nação próprio, mas de caráter popular, onde a verdadeira democracia – a ditadura do proletariado – fosse a força política a tornar a dignidade e a humanidade uma realidade para a imensa maioria.

Por isso que nacionalismo e internacionalismo são os dois lados da mesma moeda de um processo revolucionário comunista. É libertar o povo e ajudar os demais a se libertarem, e não subjugá-los. Não é uma forma de chauvinismo tosco, potencialmente assassino, xenófobo, mas uma compreensão moral de que se deve ajudar qualquer povo irmão a se defender e a se desenvolver. Kardec, ao seu modo e na linguagem ainda bem típica do iluminismo, fala praticamente a mesma coisa sobre o que é uma “civilização completa”, a qual não busca submeter, mas auxiliar.

Quando analisamos a formação social brasileira, embasada no capitalismo periférico e dependente, que nunca formou uma burguesia autônoma e nacionalista, com um projeto próprio de nação, mas ao contrário, sempre se curvou aos interesses do capitalismo central, não há outra alternativa à verdadeira independência do Brasil senão aquela que passe pela completa transformação das estruturas econômicas, sociais e políticas sob a hegemonia das classes populares e trabalhadoras.

Até que isso aconteça, o país será uma máquina de extorquir e espoliar o povo em prol de uma ínfima classe dominante ignorante e profundamente perversa, sempre pronta a acolher os interesses da centralidade do capitalismo, não importa o preço a pagar. Será apenas uma máquina de moer gente, de produzir carvão para queimar, como dizia Darcy Ribeiro.

Para essa classe dominante, com ou sem Bolsonaro, com ou sem democracia, com ou sem apoio popular, o seu projeto de extorsão precisa seguir. Uma vez, moeram os povos originários. Uma vez, moeram os povos africanos reduzidos à escravidão. Agora, moem o povo trabalhador com salários de fome e de uma política de austeridade fiscal, tudo para canalizar a riqueza produzida para pouquíssimos bolsos.

Por isso, a independência passa por tudo aquilo que é negado ou criminalizado pelas classes dominantes. Passa pela conscientização política do povo e pela organização das classes populares e trabalhadoras em busca de uma real e efetiva soberania popular. Não como projeto de dominação, mas como projeto de libertação e de emancipação humana e social em escala global.


* Texto publicado na página do Coletivo Crítica Espírita, em 7 de setembro de 2021.


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