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Reflexões sobre o colonialismo

por Elton Rodrigues


Grafitti em homenagem a Aimé Césaire, no skatepark de Royan


Para os espíritas que defendem – abertamente ou não – o colonialismo europeu, muito se baseando no livro “Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho”, mas também em muitos autores “clássicos”, compartilho o discuro de Aimé Césare (1955), “o Victor Hugo do século XX...um homem de palavras e um homem de combates”, segundo o Le Nouvel Observateur.

....

Uma civilização que se mostra incapaz de resolver os problemas que seu funcionamento provoca é uma civilização decadente.


Uma civilização que opta por fechar os olhos para os seus problemas mais cruciais é uma civilização doente.

Uma civilização que se esquiva diante de seus princípios é uma civilização moribunda.

O fato é que a chamada civilização “europeia”, civilização “ocidental”, tal como foi moldada por dois séculos de governo burguês, é incapaz de resolver os dois principais problemas aos quais sua existência deu origem: o problema do proletariado e o problema colonial. Levada ao tribunal da “razão” e ao tribunal da “consciência, a Europa se mostra impotente para justificar-se. Cada vez mais, se refugia na hipocrisia, tanto mais odiosa por ter cada vez menos chances de enganar.


A Europa é indefensável.


Parece ser essa constatação que os estrategistas norte-americanos estão sussurrando [1].

Em si, isso não é grave.

O grave é que “a Europa” é moral, espiritualmente indefensável.


E hoje acontece que não são apenas as massas europeias que a incriminam, mas a acusação é proferida no plano mundial por dezenas e dezenas de milhões de homens que, das profundezas da escravidão, se erigem em juízes.

Você pode matar na Indochina, torturar em Madagascar, aprisionar na África Negra, seviciar nas Índias Ocidentais. Os colonizados agora sabem que têm uma vantagem sobre os colonialistas. Sabem que seus “senhores” provisórios estão mentindo.


Portanto, seus “senhores” são frágeis.

E já que hoje me pedem para falar sobre colonização e civilização, vamos direto à mentira principal, a partir da qual todas as outras proliferam.


Colonização e civilização?


A maldição mais comum nessa questão é a de ser enganado em sua boa-fé pela hipocrisia coletiva, perita em situar mal os problemas para melhor legitimar as odiosas soluções oferecidas.

Isso significa que o essencial aqui é ver com nitidez, pensar com nitidez, entender temerariamente, responder com nitidez à inocente pergunta inicial: o que, em seu princípio, é a colonização? É concordar que não é nem evangelização, nem empreendimento filantrópico, nem vontade de empurrar para trás as fronteiras da ignorância, da doença e da tirania, nem expansão de Deus, nem extensão do Direito; é admitir de uma vez por todas, sem recuar ante as consequências, que o gesto decisivo aqui é do aventureiro e do pirata, dos merceeiros em geral, do armador, do garimpeiro e do comerciante; do apetite e da força, com a sombra maléfica, por trás, de uma forma de civilização que, em um momento de sua história, se vê obrigada internamente a estender à escala mundial a concorrência de suas economias antagônicas.


Continuando minha análise, acho que a hipocrisia é de data recente; que nem Cortez descobrindo o México do alto das grandes teocalis [2], nem Pizarro diante de Cuzco (ainda menos Marco Polo diante de Cambaluc [3]), arvoram-se mensageiros de uma ordem superior; que matem; que saqueiem; que tenham capacetes, lanças, cupidez; mas os embusteiros vieram depois: e o grande responsável nesse campo é o pedantismo cristão, por ter elaborado as equações desonestas: cristianismo = civilização; paganismo = selvageria, das quais só poderiam resultar as abomináveis consequências colonialistas e racistas, cujas vítimas seriam os índios, amarelos e negros.

Acertado isso, admito que é bom colocar diferentes civilizações em contato; que casarem-se mundos diferentes é excelente; que uma civilização, qualquer que seja seu gênio íntimo, murcha ao dobrar-se sobre si mesma, que a troca aqui é oxigênio, e que a grande sorte da Europa é haver sido uma encruzilhada e que, por ter sido o lugar geométrico de todas as ideias, o receptáculo de todas as filosofias, o lugar de acolhida de todos os sentimentos, tornou-se o melhor redistribuidor de energia.


Mas então apresento a seguinte questão: a colonização realmente pôs em contato? Ou, se preferirem, de todas as formas de estabelecer contato, ela foi a melhor?


Eu respondo: não.


E digo que, da colonização à civilização, a distância é infinita; que, de todas as expedições coloniais acumuladas, de todos os estatutos coloniais elaborados, de todas as circulares ministeriais despachadas, não sobraria um único valor humano.


Aimé Césaire, Discurso sobre o colonialismo, editora Veneta.


[1] Com o fim da Segunda Guerra Mundial, com o crescimento dos partidos comunistas na Europa Ocidental, pareceu mesmo que países como a França poderiam se tornar comunistas.

[2] Antigas pirâmides mesoamericanas.

[3] Antigo nome de Pequim.


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