Materialismo

por Elton Rodrigues




Este termo foi usado pela primeira vez por Robert Boyle em sua obra de 1674 intitulada The Excellence and Grounds of the Mechanical Philosophy [1]. Boyle foi um filósofo natural, químico e físico irlandês que se destacou pelos seus trabalhos no âmbito da física e da química.


De uma forma geral, materialismo pode ser considerado como “uma doutrina que identifica, na matéria e em seu movimento, a realidade fundamental, com capacidade de explicação para todos os fenômenos naturais, sociais e mentais” [2].


Allan Kardec, comentando as questões 147 e 148 de O Livro dos Espíritos, diz que


“Por uma aberração da inteligência, há pessoas que só veem nos seres orgânicos a ação da matéria e a ela atribuem todos os nossos atos. No corpo humano, apenas viram a máquina elétrica; apenas pelo funcionamento dos órgãos, estudaram o mecanismo da vida; muitas vezes, viram-na extinguir-se pela ruptura de um fio e nada mais viram senão esse fio; procuraram saber se alguma coisa restava e, como só encontraram a matéria que se tornara inerte, como não viram a alma escapar e não puderam retê-la, daí concluíram que tudo estava nas propriedades da matéria e que, portanto, após a morte, apenas existe a aniquilação do pensamento; triste consequência, se assim fosse, pois, então, o bem e o mal não teriam objetivo; o homem teria razão em pensar só em si e em colocar acima de tudo a satisfação de seus prazeres materiais; os laços sociais seriam rompidos e as mais santas afeições desfeitas para sempre. Felizmente, essas ideias estão longe de ser gerais; pode-se até dizer que elas são muito circunscritas e constituem apenas opiniões individuais, pois em parte alguma elas foram erigidas como doutrina. Uma sociedade fundada sobre essas bases traria em si o gérmen de sua dissolução e seus membros se entredilacerariam, como animais ferozes” [3].

Já em 1858, Allan Kardec escrevia que [materialismo é o]


“sistema dos que pensam que tudo é matéria no homem e que, assim, nada sobrevive nele após a destruição do corpo. Parece-nos inútil refutar este ponto de vista, que, além do mais, é opinião pessoal de certos indivíduos e em parte alguma foi erigido em doutrina. Se se pode demonstrar a existência da alma pelo raciocínio, as manifestações espíritas dela oferecem as provas mais patentes; por meio dessas manifestações, assistimos, de mil maneiras diferentes, a todas as peripécias da vida de além-túmulo. O materialismo, que se baseia apenas na negação, não pode fazer face à evidência dos fatos; eis porque a doutrina espírita tantas vezes triunfa sobre aqueles mesmos que mais resistiram a todos os outros argumentos. Sua vulgarização é o meio mais poderoso para extirpar esta chaga das sociedades civilizadas” [4].

Allan Kardec também trata do tema em O Livro dos Médiuns, nos itens 20 e 21, no capítulo O Método, afirmando


“Dentre os materialistas, é preciso distinguir duas classes: na primeira, colocaremos aqueles que o são por sistema; neles não há dúvida, há a negação absoluta, raciocinada à sua maneira; aos seus olhos, o homem é apenas uma máquina que funciona enquanto está organizada, que se estraga e da qual, após a morte, só resta a carcaça.
(...)
A segunda classe dos materialistas e muito mais numerosa, pois o verdadeiro materialismo é um sentimento antinatural, compreende aqueles que o são por indiferença e, pode-se dizer, por falta de coisa melhor; eles não o são deliberadamente e o que mais desejariam é crer, pois a incerteza constitui um tormento para eles. Neles há uma vaga aspiração pelo futuro; este futuro, porém, lhes é apresentado em cores que sua razão não pode aceitar; daí, a dúvida e, como consequência da dúvida, a incredulidade. Neles a incredulidade não é, portanto, um sistema; assim, apresentai-lhes alguma coisa de racional e eles aceitam solícitos; estes podem, portanto, nos compreender, pois estão, sem dúvida, mais perto de nós do que eles próprios imaginam” [5].
Genericamente, as referências [3], [4] e [5] são suficientes para a definição de materialismo em Allan Kardec. Diremos, então, que materialismo para Allan Kardec é a ideia que tudo está restrito à matéria. Não há alma. E essa ideia pode levar os indivíduos, consequentemente, à conclusão de que o prazer é o único guia da vida.
Da mesma forma que a antiga definição de Christian Wolff (1679-1754), segundo a qual são materialistas “os filósofos que admitem apenas a existência dos entes materiais, ou seja, dos corpos” [1] não é suficiente para apontar todas as formas históricas de materialismo, o que é encontrado nos livros de Allan Kardec também não é suficiente para circunscrever todas as definições para materialismo.

Dito isso, é possível distinguir [1]:


1) Materialismo Metafísico ou Cosmológico, que se identifica com o atomismo filosófico;

2) Materialismo Metodológico, segundo o qual a única explicação possível dos fenômenos é a que recorre aos corpos e aos seus movimentos;

3) Materialismo Prático, que reconhece no prazer o único guia da vida;

4) Materialismo Psicofísico, para qual os fenômenos psíquicos são causados estritamente por fenômenos fisiológicos;


Essas são as formas historicamente reconhecíveis do materialismo. Porém, é preciso considerar as formas conhecidas como Materialismo Dialético e Materialismo Histórico, consideradas à parte.


Essas informações são suficientes para indicar que é necessário maior prudência aos que almejam tratar do tema “à luz do espiritismo”. Mas para demonstrar que é difícil, senão impossível, circunscrever os materialistas com uma única definição citaremos, mais uma vez, Abbagnano [1]:


“Não se pode aceitar, porém, como historicamente legítimo o significado que Berkeley atribui ao termo, entendendo por materialistas todos aqueles que de qualquer maneira reconheçam a existência da matéria, porque nesse sentido Aristóteles e os aristotélicos também seriam materialistas; tampouco é possível chamar os estóicos de materialistas, ainda que, para eles, tudo o que existe na natureza é corpo, uma vez que admitiam um princípio racional divino como causa do mundo; por motivos análogos, não se pode julgar que Tertuliano seja materialista por ter afirmado que “tudo o que existe é corpo”.

Materialismo Cosmológico


É caracterizado pelas seguintes teses:

a) Caráter originário da matéria, precedendo todos os outros seres e é a causa deles;

b) Estrutura atômica da matéria;

c) Presença na matéria de uma força capaz de pô-los em movimento e de levá-los a se combinarem formando e dando origem às coisas;

d) Negação do finalismo do universo ou de qualquer ordem que não consista na simples distribuição das partes materiais no espaço;

e) Redução dos poderes espirituais humanos à sensibilidade, ou seja, sensacionismo (doutrina que reduz conhecimento a sensação e realidade a objeto da sensação)


Materialismo Metodológico


“Foi defendido primeiramente por Hobbes; sua tese fundamental consiste em julgar que a noção de matéria, ou seja, de corpo e de movimento, é o único instrumento disponível para a explicação dos fenômenos. Hobbes afirmava de fato que o conhecimento de uma coisa é sempre conhecimento de sua gênese, e que a gênese é movimento. Portanto, todo conhecimento é conhecimento do movimento, e movimento implica corpo.

(...)

Recentemente, materialismo metodológico foi defendido pelos filósofos do círculo de Viena, especialmente por Carnap, mas em sentido diferente do de Hobbes e referindo-se à linguagem: tal materialismo é a exigência de traduzir para os termos da linguagem física os dados protocolares, a fim de construir com eles uma linguagem inter-subjetiva. Esse materialismo identifica-se, portanto, com o fisicalismo [6] e não implica nenhuma afirmação sobre a existência da matéria, nem a dedutibilidade das leis biológicas e psicológicas a partir das leis físicas. Sem dúvida, segundo esse ponto de vista, a unificação das leis da ciência é meta da própria ciência, mas não se pode excluir nem prever que essa meta seja alcançada” [1].


Materialismo Prático


Pertence mais à linguagem comum do que à filosofia. É comum classificações como “materialista”, “tendência materialista”, “materialismo” de grupos ou classes para indicar a tendência ao conforto ou uma ética que adote o prazer como único guia do comportamento. Todavia, o termo filosófico para isso é hedonismo (termo que indica tanto a procura indiscriminada do prazer quanto a doutrina filosófica que considera o prazer como o único bem possível, portanto como o fundamento de vida moral). O hedonismo muitas vezes é acompanhado é acompanhado pelo materialismo, mas não é regra. Como exemplo, temos a ética de Epicuro e dos materialistas do século XIX que é hedonista e aqui, talvez, fique claro porque Kardec ataca o “materialismo”. Por outro lado, a ética de Demócrito não é hedonista.


Materialismo Psicofísico


Consiste em afirmar que a atividade espiritual humana é efeito estrito da matéria, ou seja, do organismo, do sistema nervoso ou do cérebro. Essa tese apresentou-se sob diversas formas nos séculos XVIII e XIX; uma delas é a concepção do homem-máquina. É possível encontrar críticas a essa tese por autores como Allan Kardec, Gabriel Delanne, Léon Denis e tantos outros espíritas ou espiritualistas dos séculos XVIII, XIX e XX. O materialismo, para muitos filósofos e cientistas do século XIX estava estabelecido na dependência causal dos poderes espirituais humanos em relação ao sistema nervoso. Em uma obra de 1854, Köhlerglaube und Wissenschaft, o naturalista Karl Vogt afirmava que “o pensamento está para o cérebro assim como a bílis está para o fígado ou a urina para os rins”.

Finalmente, em destaque, falaremos acerca do materialismo dialético e materialismo histórico, que tanto causa confusão dentro da direita quanto dos que se dizem de esquerda.


Materialismo Dialético


Mais que materialismo, trata-se na realidade de um dialetismo naturalista, cujos princípios foram propostos por Marx, desenvolvidos por Engels. Segundo Engels, Hegel reconheceu perfeitamente as leis da dialética, mas considerou-as “puras leis do pensamento”, visto que não foram extraídas da natureza e da história, mas “concedidas a estas do alto, como leis do pensamento”. Porém, “se invertermos as coisas, tudo se tornará simples: as leis da dialética que, na filosofia idealista, parecem extremamente misteriosas, tornam-se logo simples e claras como o Sol” [7].

“Segundo Engels, são três as leis:


1ª lei da conversão da quantidade em qualidade e vice-versa;

2ª lei da interpretação dos opostos;

3ª lei da negação da negação.


A primeira significa que na natureza as variações qualitativas só podem ser obtidas somando-se ou subtraindo-se matéria ou movimento, ou seja, por meio de variações quantitativas. A segunda lei garante a unidade e a continuidade da mudança incessante da natureza. A terceira significa que cada síntese é por sua vez a tese de uma nova antítese que dará lugar a uma nova síntese. Segundo Engels, esse conjunto de leis determina a evolução necessária – e necessariamente progressista – do mundo natural. A evolução histórica continua, com as mesmas leis, a evolução natural. O sentido global do processo é otimista. A organização da produção segundo um plano, como se realizará na sociedade comunista, destina-se a elevar os homens acima do mundo animal, em termos sociais, tanto quanto o uso de instrumentos de produção o elevou em termos de espécie. Como se vê, o materialismo dialético de Engels nada mais é que a teoria da evolução (que nos tempos de Engels festejava seus primeiros triunfos), interpretada em termos de fórmulas dialéticas hegelianas, com prognósticos extremamente otimistas.


Costuma-se considerar que o materialismo histórico (veremos) e o materialismo metafísico são partes integrantes do materialismo dialético. Ainda falaremos sobre o materialismo histórico, mas sobre o segundo, foi mais enfatizado por Lênin e pelos comunistas russos do que Marx e Engels. Lênin assim resumia as teses do materialismo:


1ª Há coisas que existem independentemente de nossa consciência, independentemente de nossas sensações, fora de nós;

2ª Não existe e não pode existir diferença alguma de princípios entre o fenômeno e a coisa em si. A única diferença efetiva é a que existe entre o que é conhecido e o que ainda não o é;

3ª Sobre a teoria do conhecimento, como em todos os outros campos da ciência, deve-se raciocinar sempre dialeticamente, ou seja, nunca supor que nosso conhecimento seja invariável e acabado, mas analisar o processo graças ao qual o conhecimento nasce da ignorância ou o conhecimento vago e incompleto torna-se mais justo e preciso. Como se vê, tampouco essas teses expressam uma concepção materialista, mas constituem uma reivindicação do realismo gnosiológico” [1].


Materialismo Histórico


Engels designou como materialismo histórico o cânon de interpretação histórica proposta por Marx, mais precisamente o que consiste em atribuir aos fatores econômicos peso preponderante na determinação dos acontecimentos históricos. Em Ideologia Alemã, Marx defende o ponto de vista antropológico, segundo o qual a personalidade humana é constituída intrinsecamente por relações de trabalho e de produção de que o homem participa para prover às suas necessidades. A “consciência” do homem (suas crenças religiosas, morais, políticas etc.) é resultado dessas relações, e não seu pressuposto. Dessa forma, a tese do materialismo histórico é de que as formas assumidas pela sociedade ao longo de sua história dependem das relações econômicas predominantes em certas fases dela. Marx diz: “Em sua vida produtiva em sociedade, os homens participam de determinadas relações necessárias e independentes de sua vontade: relações de produção que correspondem a certa fase de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. Esse conjunto de relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, que é a base real sobre a qual se erige uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas sociais de consciências. (...) Portanto, o modo de produção da vida material em geral condiciona o processo da vida social, política e espiritual” [8]. Marx elaborou essa teoria sobretudo em oposição ao ponto de vista de Hegel, para quem é a consciência que determina o ser social do homem; para Marx, pelo contrário, é o ser social do homem que determina a sua consciência.


Contudo, não se deve achar que Marx desejou tornar-se defensor de um fatalismo econômico segundo o qual as condições econômicas necessariamente levariam o homem a determinadas formas de vida social. Nessas relações econômicas, que dependem de técnicas de trabalho, produção, troca etc., o homem é elemento ativo e condicionante. Portanto, a condicionalidade que a estrutura econômica exerce sobre as superestruturas sociais é, em parte, uma autocondicionalidade do homem em relação a si próprio [9].


Na época da I Internacional (fundação em 1864) o materialismo histórico é entendido sobretudo como a nova ciência capaz de explicar as leis do movimento real da História, com uma precisão semelhante à da física, da astronomia e das ciências naturais em geral. Autor emblemático dessa tendência é Karl Kautsky, de formação positivista, para quem o marxismo integra e completa o darwinismo porque, assim como Darwin descobriu as leis da evolução das espécies, também Marx descobriu as leis da evolução da sociedade [1].


Já Hobsbawm, em A Contribuição de Karl Marx para a historiografia, livro de 1970, atribui vitalidade ao materialismo histórico porque ele nos ajuda a reconhecer na História as estruturas sociais e sobretudo o caráter histórico destas, ao contrário de outras teorias que, ainda que de maneiras diferentes, minimizam, ignoram ou negam o valor da historicidade, portanto a dinâmica das transformações sociais.

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Observamos muitas críticas ao marxismo a partir de informações truncadas e deturpadas. Há, também, por parte de alguns espíritas autoproclamados progressistas, uma tentativa de caluniar os espíritas marxistas. Onde esses últimos deveriam rever suas posições, pois haveria um contrassenso em ser espírita e marxista, porque ser marxista é sinônimo de ateísmo. Ora, essa tese é absurda e demonstra a completa ignorância dos que a professam. Por associarem Materialismo Dialético e Materialismo Histórico com o materialismo atacado por Allan Kardec, acusam os espíritas marxistas de incoerentes.


O que esses críticos não percebem é que os materialismos criticados por Kardec e, de alguma forma, pelos grandes autores espíritas pós-Kardec, são os cosmológicos (pois nega a existência de Deus, em um primeiro momento), o prático (que relaciona-se com o hedonismo) e o psicofísico (que nega a existência da alma nos processos mentais). Por outro lado, materialismo dialético e histórico são metodologias que buscam compreender a evolução social. Ninguém, em sã consciência, afirma que é preciso desconsiderar Newton, Einstein, Curie, Aristóteles, Francis Bacon, Faraday (que fez experimentos buscando provar que as mesas girantes era uma farsa), Hawking, Mendel etc., para ser espírita. Por que, então, esse esforço em atacar Marx?


Deixaremos a questão aberta e aprofundaremos esse debate em um texto futuro. Hoje, com o resumo sobre materialismo, esperamos elevar o nível das argumentações sobre as relações possíveis entre espiritismo e marxismo.

Referências


[1] ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, 1ª Edição, 2018, MARTINS FONTES, São Paulo

[2] Oxford English Dictionary, https://www.oed.com/, acessado em 20 set 2020.

[3] KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, 2ª Edição, 2011, CELD, Rio de Janeiro

[4] KARDEC, Allan, Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas, 8ª Edição, 2012, O CLARIM, Matão

[5] KARDEC, Allan, O Livro dos Médiuns, 1ª Edição, 2010, CELD, Rio de Janeiro

[6] Teoria segundo a qual os diversos campos do conhecimento, inclusive as chamadas ciências humanas, devem elevar a física à condição de um paradigma científico universal, supondo que todos os aspectos da realidade, inclusive estados mentais e afetivos, somente adquirem plena compreensibilidade e concretude se analisados como realidades físicas.

[7] ENGELS, Friedrich, Anti-Dühring, 1ª Edição, 2015, BOITEMPO, São Paulo

[8] KARL, Marx, Contribuição à Crítica da Economia Política, 2ª Edição, 2008, EXPRESSÃO POPULAR, São Paulo

[9] KARL, Marx, ENGELS, Friedrich, A Ideologia Alemã, 1ª Edição, 2007, BOITEMPO, São Paulo

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