Jesus Cristo: Modelo e Inspiração para a Transformação do Mundo

por Antonio Carlos Barro



Juanito Laguna va a la fábrica (1977), de Antonio Berni



Implantar um modelo inspirador de transformação do mundo em qualquer comunidade não é uma tarefa fácil. A comunidade é por vezes muito comprometida com o sistema vigente e suas estruturas violentas. São estruturas que esmagam e muitas vezes matam no nascedouro a tentativa de viver o evangelho de maneira integral. Neste breve ensaio quero recordar a importância de Cristo na tarefa de moldar este mundo com o evangelho da paz que ele transmitiu:


A tendência hoje é apresentar Jesus Cristo como tão somente aquela pessoa que quer fazer o bem a todos, curar as enfermidades e passar um óleo nas feridas do coração. Esta apresentação tem produzido uma caricatura do Cristo revelado nas Escrituras. Tem se a impressão de que o Cristo dos discursos de hoje não é a mesma pessoa descrita nos Evangelhos, tamanha é a disparidade entre eles. O Cristo do Novo Testamento é radical, tem estilo de vida simples, não cede às pressões de grupo, associa-se com pessoas que não são de bem, conversa com quem não deveria conversar, faz perguntas incômodas, desafia os poderosos da religião e do estado.


Quando o evangelista Marcos apresenta Jesus, ele o aponta como o homem que vem de Nazaré da Galileia (1:11). Nazaré era tão insignificante que não aparece citada no Antigo Testamento. Seus habitantes eram ridicularizados: "Perguntou-lhe Natanael: de Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê" (João 1:46). Mas, Jesus não somente é de Nazaré, como também é da Galileia, cujos habitantes eram considerados como ignorantes pelos sábios de Jerusalém. Esta região, habitada por pessoas que se misturaram em seus relacionamentos, não recebia por parte dos judeus nenhuma estima.


Existe algum significado para os dias atuais de que Jesus veio de Nazaré da Galileia? Às vezes, nem nos lembramos deste detalhe. O Cristo de hoje é apresentado tão somente como aquela pessoa que pode fazer alguém prosperar ou alcançar uma bênção. Dá-se a impressão de que este Jesus que está sendo anunciado veio de Londres, Paris, Tóquio ou Nova Iorque. É um Jesus que usa roupas da moda, as melhores grifes e frequenta os melhores restaurantes de São Paulo e Rio de Janeiro. Poucas coisas dos seguidores do Cristo recordam aquele homem simples das estradas empoeiradas da Palestina.


Compreensivelmente, a mensagem de hoje não destaca algumas das coisas que Jesus veio fazer ao mundo. Elas são deixadas de lado e assim vamos moldando um outro Jesus que não aquele revelado nas Escrituras. Leia os textos abaixo e selecione algumas características de Cristo que você não tem visto nas mensagens de hoje.


· Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada (Mt 10:34).

· Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra (Mt 10:35).

· Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores (Mc 2:17).

· Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento (Lc 5:32).

· Eu vim para lançar fogo sobre a terra e bem quisera que já estivesse a arder (Lc 12:49).

· Supondes que vim para dar paz à terra? Não, eu vo-lo afirmo; antes, divisão (Lc 12:51).

· Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos (Jo 9:39).

· O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10.10).

· Eu vim como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas (Jo 12:46).

· Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido (Lc 19:10).

· Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10:45).

· Tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20:28).


Este é o Cristo com a verdadeira mensagem. Fiel ao Pai ele não omitiu as verdades mais difíceis que tinha de transmitir. Por isso, seria bom se as comunidades fizessem uma releitura dos Evangelhos, bem como pedir perdão a Deus pela mutilação que estão fazendo do nosso Senhor.

Ser um seguidor de Cristo significa embarcar em uma viagem sem volta, remar contra a correnteza, ser uma pessoa contracultural.



Antonio Carlos Barro é da Igreja Presbiteriana do Caminho, Londrina, PR.

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