Desabafo

por Elton Rodrigues



Desocupados, Antonio Berni, 1934



Há tempos que não consigo escrever. E acredito que essa dificuldade seja o resultado de uma soma de fatores: demandas profissionais, cansaço mental, impotência diante do caos social...


O número de pessoas em situação de rua só aumenta. São grávidas, crianças de colo, idosos, homens, mulheres, doentes sem qualquer assistência médica, todos compartilhando as ruas em busca de algum tipo de assistência.


O povo pobre está passando fome, sede, não tem casa e, se tem, está com a geladeira vazia, está sem gás. E essa crise social não é reflexo unicamente da pandemia. Estamos em um clímax, é verdade, mas a construção desse desastre começa, de forma mais explícita, em 2013, onde houve a construção do golpe de 2016. E não podemos esquecer da farsa da Lava-Jato, que culminou na destruição de empresas brasileiras e na vitória de Bolsonaro, o obtuso que é a representação do que há de mais maléfico nessa terra que, reza a lenda, é a pátria do evangelho.

Como se a pandemia não fosse o suficiente para maltratar a população, o Brasil se encontra sob um governo facínora que se organiza a partir da norma “quanto pior, melhor”. Bolsonaro, seus ministros e todos aqueles engajados nessa norma fétida trabalham, diuturnamente, para que a obscuridade, que já é grande, se torne ainda mais intensa.


Em um primeiro momento poderíamos imaginar que seria óbvio que cristãos de todas as crenças lutariam contra os absurdos proclamados e realizados por esse governo que enche a boca para falar de Deus, mas que tem as mãos repletas de sangue. Ah, ledo engano.


São igrejas evangélicas lotadas com pessoas fazendo “arminha” com as mãos e gritando “mito”; são padres e católicos apresentando armas no lugar de cruzes; são espíritas completamente desconectados da realidade, com o senso crítico adormecido, anistiando o discurso fascista em nome de uma falsa paz, preferindo a posição morna, insossa e hipócrita diante da vida.


Não está fácil militar em espaços religiosos.


Mas é preciso.


É necessário falar de ciência, de política, de saúde pública. É urgente aprofundar o debate em torno de temas como feminismo, preconceitos diversos, classe, anticapitalismo e emancipação popular.


Ao mesmo tempo, é inadiável que haja uma maior preocupação com o autocuidado, pois para que a luta seja eficiente, corpo e mente devem estar saudáveis.


Estou exausto, mas a vontade é firme!


Que o amor e a força de Jesus de Nazaré, o homem que lutou – e luta – por uma sociedade mais justa, possam ser algo como um suporte para os leitores desse pequeno desabafo.

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