Apresentação do projeto “Dicionário do Puebla”

Atualizado: Ago 22

por Elton Rodrigues




O cenário atual do movimento espírita brasileiro, de forma mais aguda, quando comparado com as últimas décadas, indica a importância de um reexame daquela que é conhecida como divulgação espírita. A divulgação espírita é prática conhecida e possui uma proposta quase que hegemônica, não estando restrita aos livros e palestras. Os grupos de estudos, ou “cursos de espiritismo”, talvez sejam os locais de maior impacto na construção de um determinado conhecimento doutrinário e, aqui, também estão incluídos os projetos voltados ao público infantil e infanto-juvenil, mais conhecidos como evangelização e mocidade.


O movimento espírita brasileiro representa um microcosmo da sociedade em que está inserido. Assim, as estruturas sociais e a forma que, por exemplo, a educação é tratada pelos grupos e instituições espíritas são avaliadas, a partir de uma aproximação plausível, com as mesmas tendências e objetivos.


A estrutura educacional brasileira, como a estrutura dos cursos de espiritismo, seguem os parâmetros educacionais capitalistas, onde “a escola ‘assume’ o papel de ‘indústria’ que tem como ‘produto’ final o aluno, ou seja, mão-de-obra barata, perdendo, assim, sua função social, que é a formação do educando para cidadania” [1]. Enquanto nas escolas, alunos e alunas recebem informações em caixas desconectadas, hermeticamente fechadas e descontextualizadas com a vida prática, a estrutura educacional espírita almeja que seus alunos e alunas decorem as informações contidas nos “livros básicos” sem que, necessariamente, façam uma reflexão real, concreta, emancipadora entre a teoria e prática – mesmo que o discurso comum diga sobre a grande importância da prática, mas até isso é um enunciado memorizado.


Da mesma forma que ocorre na educação formal, os cursos espíritas funcionam como indústrias, formatando espíritas alienados das correlações no binômio indivíduo-sociedade. Quando muito, há uma repetição, por parte dos “professores e professoras espíritas”, de análises superficiais, tanto da teoria quanto das propostas de uma ação no mundo, como se os alunos, alunas e a própria sociedade fossem as mesmas de uma França do século XIX. É óbvio que essa adversidade não perpassa todos os agrupamentos espíritas, mas, infelizmente, é algo bem comum. Os grupos que ultrapassam essas barreiras são exceções. Diante dessas questões, coletivos diversos lutam contra essa forma obtusa de apresentar o espiritismo.


Disputas de narrativas são travadas desde o início da construção da doutrina espírita. Grupos diversos questionavam a hegemonia sobre diversos aspectos, sejam acerca da ciência, interpretações evangélicas, filosóficas e, até mesmo, sobre possibilidades de um debate entre espiritismo e possíveis mudanças nas estruturas socioeconômicas da sociedade. Hoje, há uma disputa de narrativa bem nítida no movimento espírita brasileiro: o espírita deve debater e fazer política, mesmo que partidária? Somos daqueles que afirmam que não apenas é necessário, mas é urgente aprofundarmos essa questão dentro do movimento espírita. Além disso, defendemos a ideia de que só teremos um planeta regenerado, na concepção espírita, se batalharmos para mudanças reais, profundas, que atinjam os fundamentos da estrutura social estabelecida.


Por outro lado, na presença de uma luta tão importante, algumas pessoas preocupadas por mostrar um espiritismo mais engajado com as lutas sociais acabam repetindo os mesmos erros que dizem combater. Mesmo os que não estão interessados nas lutas sociais, mas que acusam as instituições e federações espíritas por promoverem estudos superficiais acabam por repetir os mesmos erros quando estão diante de temas que não lhes agradam ou para que suas concepções ideológicas estejam à frente da realidade.


Temos, como exemplo, o termo materialismo.


O espírita aprendeu que materialismo é algo nocivo e que deve ser combatido com todas as forças. Porém, o tema é pouco aprofundado e, por isso, clichês são criados e compartilhados, mesmo por aqueles que afirmam batalhar por um movimento espírita mais esclarecido.


Este não é o único termo “problemático”, mas será o primeiro que vamos trabalhar em um novo projeto do Puebla.

Vamos construir um dicionário contextualizado para a realidade brasileira, de termos importantes para o espírita que luta por um movimento mais esclarecido, emancipado intelectualmente e que se preocupe com a luta concreta por um mundo mais justo, fraterno.


Nosso primeiro termo será: materialismo.


Aguardem.


Referências


[1] BATISTA, Flávia, A RELAÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO E CAPITALISMO: O ALUNO COMO "PRODUTO" DA "INDÚSTRIA" ESCOLA, Revista Eletrônica da Faculdade Metodista Granbery, ISSN 1981 0377, 2011

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