A importância de uma formação política

por Elton Rodrigues



Escuela Rural (1954), de Antonio Berni


Motivado pela última edição do Crítica Espírita, outubro de 2020, e pela necessidade de superarmos alguns imbróglios, naquilo que podemos chamar de “crise orgânica” na esquerda, arriscarei alguns comentários sobre a importância de uma formação política para os coletivos espíritas que almejam, de alguma forma, a superação do discurso neoliberal, individualista, meritocrático e pequeno-burguês que permeia o movimento espírita brasileiro em pleno século XXI.


Uma crise teórica e programática ganha contornos encorpados a partir de 2013, com a cooptação pela direita, sem muito esforço, das pautas das manifestações populares, somada à grande derrota para o fascismo de Bolsonaro, em 2018. Desde então, com o declínio exponencial dos direitos trabalhistas, da segurança econômica, ao acesso à educação, à saúde, com a degradação do meio ambiente e a normalização dos discursos de ódio e anticientíficos, qualquer manifestação minimamente razoável é recebida como clímax da análise política e, até mesmo, vista como a salvação dos problemas sociais brasileiros.


Já vi pessoas, declaradamente de esquerda, compartilhando textos onde o autor defendia o uso de máscaras durante a pandemia, mas no mesmo texto atacava a esquerda, afirmando que era um grupo de acéfalos. A pessoa que compartilhou estava tão feliz por encontrar alguém defendendo o uso de máscaras que não percebeu o ataque direcionado a ela própria, visto que ela era de esquerda. Esse exemplo se equipara com a paixão que parte da esquerda sente por figuras como Tábata Amaral, Felipe Netto, Gabriela Prioli e Guga Chacra. Isso só demonstra a dimensão da tarefa que temos pela frente e como é urgente a empreitada em torno de uma formação política que, dentre outras coisas, pode ser visualizada como um escudo contra os discursos liberais com cheiro – bem tênue, é verdade – de propostas emancipatórias.


Mesmo essa crise teórica-prática sendo geral, tratarei especificamente das mazelas geradas e as soluções possíveis no movimento espírita brasileiro. Esse movimento é um microcosmo da sociedade brasileira, mas apresenta certas especificidades que devem ser analisadas buscando soluções eficientes.


O projeto Puebla luta para que o espiritismo seja visto não apenas como uma doutrina que explica o mundo, mas que seja utilizado, também, como mais uma ferramenta teórica-prática para a transformação desse mundo. Mas o Puebla não está só. Outros coletivos, como o Crítica Espírita e Espíritas à Esquerda, debatem e estão em franco estágio de planejamento para que que seus projetos se tornem orgânicos, vivos, concretos.


Basicamente, a ideia é estar cada vez mais próximo dos marginalizados, escutando e auxiliando no que for possível para que esses, que são pisoteados diariamente, consigam sua emancipação intelectual, emancipação de seus corpos, de seus sonhos. Nesse sentido, mesmo que a ajuda material seja necessária, de forma urgente, esse não deve ser o fim da atuação do espírita. Esse procedimento deve ser visto apenas como um meio de manter essas pessoas vivas, com coragem e esperança em dias melhores. E para que haja coragem e esperança é necessário estar junto. Aprendendo e trocando informações, sempre que possível, indicando novas perspectivas, mostrando seus direitos e possibilidades de luta. E para que o espírita saiba como melhor agir, na aproximação e atuação concreta, é urgente que esse militante tenha uma formação política.


Antes de tudo, o espírita que tem o viés político à esquerda, não tem que ter vergonha ou uma postura que evite apresentar essa tendência. A tática “nem esquerda nem direita” só serve à direita, visto que o ceticismo popular sobre a política e os políticos só aumenta. E por que aumenta? Porque a população já não consegue diferenciar os discursos e objetivos dos partidos. E, enquanto a


“direita pode perfeitamente prescindir dos partidos políticos, como o demonstrou durante os períodos ditatoriais, [a] esquerda, na medida em que precisa construir uma força popular antissistêmica para transformar qualitativamente a sociedade, não pode prescindir de um instrumento político – seja este um partido, uma frente política ou outra fórmula” [1].

Ademais, é inadiável ampliar os mecanismos teóricos para o enfrentamento do senso comum que gravita na sociedade, insuflado pela ideologia da classe dominante, ou seja, burguesa, capitalista. E a influência dessa ideologia acaba dificultando, em muito, a capilaridade dos discursos emancipatórios. Isso, porque, a população acaba não tendo como algo nítido, notório, que só a esquerda luta por melhorias reais do povo. Sobre isso, Marta Harnecker diz: “Que exemplo melhor desta influência do que o fato de os setores mais pobres e marginalizados da América Latina votarem nos candidatos mais à extrema direita? [1]


Por fim, é fundamental que nesse processo de formação política, um equilíbrio entre o conhecimento teórico, intelectual, e a experiência direta, adquirida por homens e mulheres em suas lutas sociais. Erramos, sempre, quando tiramos a importância da experiencia direta, mas, também, quando sobrevalorizamos essa experiência como única fonte de conhecimento.


[1] HARNECKER, Marta, Os desafios da esquerda latino-americana, 2019, 2ª Edição, EXPRESSÃO POPULAR, São Paulo


72 visualizações

© 2020 por Puebla