A Caridade e a Justiça Social

por Elton Rodrigues


A caridade, de Zeferino da Costa, 1872



Por muito tempo, uma interpretação quase homogênea sobre o que era caridade, tomou conta das análises espíritas. Cursos, palestras, livros e filmes trataram de explicar como que o espírita deveria portar-se no mundo, diante das dores alheias. A apresentação da tese quase sempre começava da mesma forma: “a Igreja dizia que fora dela não havia salvação, mas entendemos, agora, que fora da caridade não há salvação”. E assim seguia toda uma explicação, todo um roteiro de como o espírita deveria “treinar a caridade”.


A reflexão inicial dos espíritos e de Allan Kardec se transformou em um esquema, em uma receita de bolo. Então, a partir dessa visão, seguindo a receita, os espíritas almejavam atingir uma elevação espiritual. O problema, amigas e amigos, que mesmo seguindo os passos de uma receita, o bolo pode ficar solado. E o segundo problema é, mesmo que estejamos colocando a questão no passado, essa ideia permanece no movimento espírita.

Por conta de um pensamento completamente acrítico diante dessa temática, muitas falas e posturas absurdas foram afastando muitos espíritas da própria racionalidade.


Um exemplo dessa falta de racionalidade pode ser visto aqui:





Mas o problema é mais grave do que achar, como o Bacelli, que a falta de pobreza é ruim, pois assim não tem como o espírita praticar a caridade. Essa é uma conclusão tão absurda e nojenta que é difícil imaginar que o problema pode ser pior do que isso. Mas é.


Bacelli está apenas reforçando a receita de bolo. Dessa forma, além de atacar esse discurso horroroso (estou com dificuldade de adjetivar tamanha monstruosidade), torna-se necessário apresentar uma nova forma de ler “a caridade”.

Hoje, no Brasil, se falarmos “vou fazer caridade, estou sendo caridoso..” isso demonstrará arrogância, petulância. Isso, porque, a língua é viva e não temos como mudar esse dinamismo. Além disso, é preciso ampliar o conceito de caridade para além dos auxílios paliativos. Ou seja, a verdadeira postura fraterna – ou a verdadeira caridade – é lutar para que todos e todas sejam completamente emancipados. Com isso, não basta dar o pão, a roupa, o ombro, mas lutar para que ninguém mais precise de doações, de ombros para chorarem os preconceitos sofridos...


Isso significa que não há necessidade de trabalhos assistenciais? É óbvio que trabalhos de assistência são necessários, visto que há todo um sofrimento que precisa de ações urgentes. Aqueles que não atuam em trabalhos assistenciais com o discurso de que “não é assim que resolveremos o problema dessas pessoas” também erra muito. Ora, então é melhor as pessoas morrerem de fome, sentirem frio, sentirem as dores da vida em seus cantos até atingirmos uma sociedade justa? Mas, quem atua em trabalhos assistenciais devem ter em mente que as suas ações são paliativas.


Assim, nossa intenção é apenas fortalecer todo um debate que ganhou nova força nesses últimos anos. Falar de caridade sem justiça social, sem emancipação dos corpos, sem a derrubada de qualquer tipo de preconceito não é caridade, é receita de bolo. É seguir a cartilha de Bacellis e de toda uma postura mofada que habita o movimento espírita brasileiro.


Que as nossas leituras em torno do tema caridade sejam críticas e pensadas a partir de nossa realidade: espíritos encarnados no século XXI. E que esses momentos de crise sejam campo fértil para a renovação de nossas ideias e de nossas ações.

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