A única escolha que temos é a opção pelos pobres e marginalizados

Elton Rodrigues


“E todo o povo ia ter com ele ao templo, de manhã cedo, para o ouvir.”Lucas 21:38



O Brasil de hoje transfigura-se velozmente no sentido dos piores pesadelos das gerações que vislumbraram um novo cenário sociopolítico a partir do início deste século. De forma mais aguda neste ano observamos, nos noticiários e nas ruas, um decréscimo vertiginoso dos direitos civis e das condições básicas de vida do povo. O desemprego e a falta de assistência por parte dos governos federal, estadual e municipal geram condições ideais para o aumento do caos urbano.

Antes de prosseguirmos é necessário salientar o que estamos chamando de povo. Povo, aqui, não é sinônimo de nação, uma vez que o nosso Brasil é extremamente heterogêneo e complexo, dentro das suas multivariadas estruturas sociais. Outrossim, é um completo absurdo achar que os privilegiados deste País sofrem algum tipo de perda de direitos.

Dessa forma, quem está contido nesse grande conjunto chamado povo? O povo é formado pelos pobres, pelos humildes, pelos marginalizados. Os pobres – quase todos negros, as mulheres e os LGBTs que vivem em submoradias com os seus subempregos são os que mais sofrem ataques nesse período conturbado, em que muitos tentam entravar a roda do progresso (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questões 781, 782 e 783).


É verdade que esses grupos sempre foram os mais prejudicados, não obstante a intensificação dos ataques por parte dos setores políticos atuais afins à filosofias deletérias. O povo, enfim, é formado por aqueles que lutam para terem voz e direitos garantidos, nessa sociedade que ainda está longe de salvaguardar “a dignidade da pessoa humana”.

De Norte a Sul, o povo sente o peso dos discursos e práticas racistas, homofóbicas, anti-pobre e que se assemelham, em várias aspectos, com proposições fascistas. O Brasil encontra-se sob domínio de uma casta política-religiosa que promove inúmeras frentes de ataque que partem – vejam só – exatamente daqueles que deveriam defender a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político (Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Dos Princípios Fundamentais, artigo 1).


Esses discursos inflamados propiciam a formação de pequenas organizações que replicam em seus microespaços o que é ditado por esta casta que está, não só nos cargos públicos, mas em diversos templos religiosos. O protagonismo das ações que partem destes que exemplificam os “sepulcros caiados” (Mateus 23:27) promove, também, uma ruptura profunda da maturação democrática pós-ditadura, gerando um desgaste físico-emocional considerável na população.

Todos, sem exceção, estão cansados de tantos embates. Contudo, é notório que o povo é o grupo afetado de forma mais contundente. E qual deve ser a postura do espírita diante desse mar de dor e angústia que invade o nosso País?

A única escolha que temos, irmãos e irmãs, se pretendemos seguir os passos dos grandes missionários da Terra, é a opção pelos pobres, pelos marginalizados e os que se sentem cansados da vida. Optar pelos pobres é optar por Jesus, que foi perseguido desde criança por aqueles que detinham o poder temporal. Optar pelos pobres é reviver a Casa do Caminho, que sustentava fisicamente e espiritualmente os desvalidos, os subalternos do mundo.


O espírita precisa compreender que o trabalho social que o espiritismo viabiliza é muito mais amplo do que a entrega do pão. O espiritismo indica novas possibilidades de enxergar as problemáticas da vida. Ele possibilita que entrevemos novos caminhos a serem trilhados.


Ao mesmo tempo, mostra, também, que a resignação não é sinônimo de resiliência, ideia tão propagada pelo capitalismo, e abraçada por parte do movimento espírita, como uma aceitação das injustiças dos homens como se fosse um planejamento divino ou que devemos nos adaptar diante do que nos chega sem que hajam novos percursos possíveis. Não! A resignação significa que, mesmo com as nossas próprias limitações, mesmo com os sofrimentos que nos chegam, precisamos continuar lutando para que todos tenham oportunidades, que todos tenham voz, continuar lutando para romper este status quo que nos apresentam. E nessa troca de experiências aprenderemos a ouvir e refletir a partir do olhar do outro, dos que não têm voz, mas que possuem sonhos.


O espírita deve sair dos espaços circunscritos das casas espíritas. E meus irmãos, quantos vão para outros espaços, durante atividades sociais, carregando os muros e os portões das casas espíritas…


Saiamos de nossos pedestais para atingir o coração dos que moram nas favelas tão atacadas. Abandonemos o evangelho decorado e levemos o abraço e palavras de amor aos homossexuais que foram expulsos de seus próprios lares ou que estão isolados no seio de suas famílias acreditando que vivem em pecado e que Deus não os ama. Participemos do crescimento das crianças e dos jovens que vivem em abrigos.


É urgente que o espírita trabalhe para mostrar que Deus não é vingativo e rancoroso e que a falta de condições básicas à vida é uma consequência das atitudes imprevidentes do homem egoísta (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 883) e não obra de Deus (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 806).


O espiritismo é doutrina prática de transformação social. Mas o que estamos fazendo com esse talento (Mateus 25:14), multiplicando ou enterrando?


  • Texto publicado em 14 de outubro de 2019, na Carta Capital

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